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Como seria o “bom português”?

Afinal, existe uma maneira correta de falar a língua?


Em julho deste ano, um vídeo que mostrava a mudança de sotaque de um jornalista ao longo de sua carreira viralizou no “X”, antigo “Twitter”, e levantou discussões sobre o preconceito linguístico presente na sociedade. Veja o vídeo citado no link abaixo: https://x.com/choquei/status/1680230635078660097?s=20


Preconceito linguístico é o pensamento de que há uma forma correta de falar uma determinada língua e qualquer variação desta forma é considerada um erro. Este preconceito pode estar atrelado a outros preconceitos, como a xenofobia, exemplo observado no vídeo acima, no qual o jornalista precisou aderir ao sotaque paulista para ser mais bem aceito na sociedade, que em sua maioria ainda discrimina os sotaques da região nordeste.


A ideia de um “português correto” é propagada na sociedade pela mídia quando esta tentar apagar os diversos sotaques presentes no Brasil e os restringe aos falares carioca/paulista, e especialmente pelas escolas que ensinam aos seus alunos a Gramática Normativa, uma gramática que ao invés de descrever as estruturas da língua, dita regras de “bom uso do português”.


Em contato com a estudante de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Maria Eduarda Serejo, ela diz sobre esta gramática:


“A gramática normativa pode ser entendida como um modelo prescritivo que busca padronizar a língua através de regras gramaticais. Ao remontar a tradição clássica que tomava como ‘bom uso’ os textos produzidos por autores da Antiguidade Grega, esta gramática contribuiu para a difusão dos conceitos de ‘certo’ e ‘errado’. É primordial destacar que nos estudos sobre variação em língua portuguesa, estes julgamentos se apresentam imprecisos na medida em que todo falante carrega variantes de competência em um mesmo sistema linguístico. De maneira consequente, tal fator não deve ser associado a uma cultura ou classe social a qual o indivíduo pertence, posto que a possibilidade de compreensão de uma sentença constata a “gramaticalidade”.


Há vários estudos que refutam este pensamento preconceituoso, como o Gerativismo de Noam Chomsky, que reconhece todo falante de uma língua como um indivíduo que é perfeitamente capaz de falá-la, pois possui uma Gramática Internalizada que de acordo com Maria Eduarda:


“É a habilidade de que todo o falante de sua própria língua tem ao coordenar e expressar seus pensamentos em um sentido lógico ao discurso que profere, desde o momento que o meio externo serve como estímulo para acionar o dispositivo da linguagem. Neste aspecto, todo indivíduo pode julgar as frases de uma língua em relação às regras de sua própria gramática, uma vez que permitirá que este avalie se a sentença está bem formulada. É uma falácia considerar que o falante que não domina a gramática normativa não pode elaborar locuções em sua própria língua, pois esta aptidão pertence à competência deste e não depende da cultura ou grupo social no qual o indivíduo está inserido.”


Dizer que há uma maneira certa de falar português, intitular uma variação da língua como a “correta” é desmerecer, tentar apagar a história de diversos povos, a cultura e a multiplicidade brasileira, uma atitude corriqueira desde o Período Colonial. Para que haja mudança neste cenário, a estudante conclui:


“Em minha perspectiva, a gramática deve ser considerada um mecanismo de inserção social, uma vez que o indivíduo é capacitado a adequar-se em diferentes contextos para o seu uso variado. Neste prisma, o ambiente escolar deve proporcionar a prática e a leitura de diversos gêneros textuais nos quais o estudante possa identificar aqueles que respondem às suas necessidades imediatas. É preciso que o professor selecione estratégias adequadas para abordá-los e mencione cada variação linguística, com o fito de não reproduzir marginalização diante de maneiras diferentes de produzir um vocábulo. Afinal, há absoluta inutilidade em manter um estado cíclico de contradição e inconsistência, frente a variedade das formas escritas de uso e a conservação de modelos tradicionais de ensino. Esta crítica mostra-se precisa na medida em que aspectos da modalidade linguística possuem caráter mutável e não há estabilidade absoluta em suas formas.”


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