Censurada pela ditadura, Navalha na Carne ganha três leituras em festival

Criada na década de 1960 por Plínio Marcos, a obra Navalha na Carne completa 52 anos neste ano, e nunca foi tão atual como agora. Censurada parcialmente pela Ditadura Militar, a peça entrou para a história ao propor um retrato de como são as coisas para as classes menos favorecidas. Violência, gírias, opressão, sexualidade e sensualidade estão presentes na obra, que busca em cada um desses elementos refletir nos personagens determinados aspectos da sociedade.


Uma das versões da obra amplia o debate para questões raciais


A peça se passa em um quarto de bordel e conta com três personagens. Nela encontramos a prostituta Neusa Sueli, que é explorada e tratada como um lixo pelo cafetão Vado. Este resume-se em um personagem que se coloca acima de todos com suas ofensas e seus maus tratos. A terceira personagem é o homossexual Veludo, suspeito de roubar o dinheiro que Sueli havia guardado para seu cafetão.

Com o desenrolar da trama, podemos fazer diversas analogias entre a encenação e a vida real. Os conflitos diários, o individualismo extremo e a liquidez das relações. O roubo do dinheiro, por exemplo, cria um ambiente de disputa em que um acusa o outro com ameaças e agressões. A violência que vemos diariamente e que tenta se disfarçar de normalidade e banalidade pelo excesso de exposição.

Na peça, Vado leva a melhor em todas as situações por se demonstrar superior e intimidas os demais personagens. Resume a truculência e a opressão que vemos em certos indivíduos ou entidades governamentais na atualidade.

Mesmo com todas as discussões e agressões sofrida por Vado, Sueli não o deixa, ora pelo desejo que ainda sente, ora pelo medo que a relação abusiva impõe. Realidade não muito distante das centenas situações que vemos midiaticamente atualmente ou das milhares que não vemos pois são caladas pela violência e pelo descaso do poder público. A vida nua e crua no palco, é o que podemos extrair da peça.

Importante para o cenário da dramaturgia brasileira e uma das obras mais versáteis, o espetáculo Navalha na Carne ganha três versões no 28º Festival de Teatro de Curitiba. Uma dela é a Navalha na Carne, uma representação da versão clássica, produzida por Katharsis Produções Artísticas E Culturais.

Uma segunda versão é a Navalha na Carne - Uma homenagem a Tônia Carrero, atriz que conseguiu derrubou a censura e produziu a peça há 50 anos. Nesta apresentação, a protagonista Sueli é interpretada pela neta de Tônia, Luiza Thiré, em homenagem à ela.

Uma terceira versão é a Navalha na Carne Negra, que amplia o debate com a questão racial junto a trama, que já é cercada de situações de preconceitos, marginalidade e violência. Ainda restam três apresentações. Para saber quais apresentações ainda estão disponíveis, basta acessar aqui o portal do Festival de Curitiba. Navalha na Carne em debate – além das peças, a organização do evento promoverá ainda uma palestra seguida de debate sobre as versões e a pluralidade da obra. Na palestra “Navalha na carne em perspectivas: modos plurais de pensar a cena”, o festival convida o público e os criadores para uma conversa a partir desse chamado: as possibilidades de dois trabalhos que articulam uma mesma dramaturgia e o que dela se expande para se pensar modos de ver e estar no mundo. O debate será no dia 4 de maio (quinta-feira). Confira aqui o endereço e horário.


Texto: Jhonatan Giovanini / Foto: Festival de Teatro

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