Os desafios de uma produção jornalística sobre o crime

29/05/2020

 

O contrabando de cigarros é um problema que envolve saúde pública, arrecadação tributária e violência. O documentário “Cigarro do Crime”, publicado pela Vice Brasil no último dia 13, mostra exatamente como esse processo acontece e os principais personagens deste crime. 

 

Débora Lopes, apresentadora do documentário, conta sobre os bastidores da produção em relato publicado no próprio site. Foram trinta dias percorrendo oito cidades entre Brasil e Paraguai para mostrar os dois lados desta atividade criminosa. Em uma das experiências que teve, acompanhando a Policia Federal na fronteira em perseguições, ela fala dos apuros: "Continuamos perseguindo, parando veículos com a polícia e lutando contra o sono, a fome e o cansaço, além do medo de não conseguir filmar uma apreensão”.

 

O veterano Mauri König, um dos jornalistas que participou da produção, conhece muito bem os riscos envolvidos em uma investigação como esta. Sobretudo, depois de 16 anos cobrindo fatos da fronteira Brasil-Paraguai. Ele conta que seu papel foi fazer uma pesquisa quantitativa. “Eu cruzei informações da Polícia Federal e Receita Federal, levantei os dados do contrabando de cigarro e tráfico de maconha a cocaína, e converti isso em valores para o mercado, o que cada um desses produtos são cobrados no mercado brasileiro, pra ver a evolução das apreensões a partir de valores, que é o que realmente importa para o contrabando e para o tráfico”. 

 

Mauri König em entrevista para o documentário com Débora Lopes. ( Crédito: Print documentário)

 

Encontrar fontes que estejam dentro do esquema e fontes relacionadas à produção de cigarro no Paraguai, foi um dos principais desafios desta produção. “Um mercado que é clandestino, que funciona na ilegalidade e que por isso está no submundo, uma economia que não aparece, as pessoas trabalham na surdina, à noite, em rotas, e sempre fugindo da polícia. Para a equipe conseguir imagens e informações para construir (o documentário) é realmente um desafio muito grande, é difícil encontrar fontes que operam o esquema do contrabando”, relata König.

 

A mesma dificuldade foi enfrentada por Débora Lopes que precisava entrevistar os cigarreiros, os homens que transportam o cigarro de uma fronteira a outra. “Perguntamos se ele poderia nos levar até alguns barqueiros, pois queríamos entrevistá-los, mas, obviamente, não ia ser tão simples”, conta em seu relato publicado na Vice.

 

Sobre a responsabilidade que a imprensa tem em falar sobre assuntos como este, König justifica: “É importante esse tipo de tema estar na mídia para que as pessoas comecem a perder essa visão romântica do contrabando de cigarro, de que é apenas um crime menor, é sim um crime e precisa ser coibido como qualquer tipo de crime”.

 

Em uma de suas várias experiências com a cobertura do contrabando de cigarros na fronteira, König conta que já ficou frente a frente com a morte, um risco enfrentado por jornalistas que escolhem falar sobre o crime. “Foi numa lancha da Polícia Federal. Fomos objeto de tiro, os traficantes da margem paraguaia atiraram”.

 

Os riscos fazem parte mas tem um limite, conforme explica Débora Lopes em seu texto: “Para um jornalista, essa adrenalina pode até ter uma carga de regozijo, mas, na boa, eu não quero morrer trabalhando. Eu não quero tomar um tiro ou ser sequestrada. Não quero ser perseguida nem sofrer ameaças. Ninguém quer.” 

 

 

O fim da Vice no Brasil

 

A Vice, site onde está hospedado o documentário, anunciou este ano que não vai mais manter seu conteúdo editorial no Brasil. Para König, essa decisão está relacionada a um contexto desfavorável ao jornalismo no Braisl, tendo em vista ataques de agentes públicos. “A saída da Vice é também um reflexo do momento econômico e político do Brasil”.

 

Apesar disso, König acredita que há espaço para produções investigativas. “Outros meios vão perceber esse vácuo deixado e vão querer ocupar esse vazio, porque podem perceber um nicho de mercado, de ganho, que pode viabilizar o negócio”. 

 

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