• Equipe Mediação

Um mergulho onírico na colônia francesa no Rio de Janeiro

Uma porta para o passado e um relance do futuro. É o que a arte representa para a humanidade. A partir dela, podemos nos aprofundar na cultura que nos forma e que nos resulta. O espetáculo Relatos Efêmeros da França Antártica é um pouco disso. Um misto de passado pouco conhecido da colonização brasileira e um reflexo dessa época nos dias atuais. É uma imersão onírica para todo espectador.




A história não é de toda desconhecida para quem conhece um pouco sobre os idos de 1.500 no Brasil. Não estamos falando das incursões portuguesas nos além mares. Mas sim da visão do cavaleiro da Ordem de Malta e oficial naval, Nicolas Durand de Villegagnon, responsável pela instalação da França Antártica, uma colônia estabelecida no Rio de Janeiro, hoje conhecida como Baía de Guanabara.

Com o apoio dos tamoios, população outrora nativa da região, a colônia ficou estabelecida entre 1555 e 1570. No espetáculo, o diretor Francisco Carlos conecta em seus textos temáticas recorrentes em torno das velhas e novas formas de colonialismo.

Nas duas horas horas de peça, os assuntos em debate na expressividade dos atores e da montagem cênica se aproximam da relação metrópole-império x colônia-espaços rurais, fricção inter-étnica entre sociedades indígenas e não-indígenas, filosofias da alteridade - história, mitologia, tempo passado-presente-futuro, anarquismos estéticos, fenômenos extremos da modernidade ocidental e de sociedade nômades. A peça é uma abordagem da a oportunidade ao público de refletir sobre a história do nosso país, sobre as raízes que herdamos de outros povos e culturas.




A dramaturgia é dividida em várias camadas, afirma o dramaturgo Francisco Carlos

A agência Mediação conversou com o diretor do espetáculo, Francisco Carlos, com um dos atores da peça, Guilherme Leme, e com a assessora de comunicação do grupo teatral, Adriana Monteiro. À reportagem, eles falaram sobre a essência do espetáculo e sobre a dificuldade da dramaturgia hoje no país.

Qual é o impacto que vocês esperam ter gerado no público ao ter abordado velhas e novas formas de colonialismo ? Francisco Carlos - Tenho um trabalho dramatúrgico, meu trabalho tem uma decomposição histórica, são muitos pontos de vista. Trata-se de saber como se lê esses fatos hoje, que não é só a história oficial. Então, faço uma decomposição, um tipo de memória da invenção do Brasil.


Não sei qual é o impacto do público e inclusive não tenho essa pretensão, sou considerado pelos críticos, um crítico do colonialismo. O público recebe como ele quer receber, cada pessoa da sua maneira.

Como dramaturgo qual a importância que você enxerga de relembrar a cultura do império colonial francês que aconteceu no Brasil ? Francisco Carlos - Tenho uma relação muito grande com o Rio de Janeiro, que antes de Brasília foi a ultima capital do Império. Tenho uma relação inclusive artísticas, samba, bolsa nova, cinema novo que são do Rio. Eu queria fazer uma coisa do Rio de Janeiro, compor a história do estado. Foi uma maneira de pensar com aquela região.



A arte é um desafio de comunicação, aponta Adriana, na foto ao lado de Guilherme


Quais são as maiores dificuldades da dramaturgia no país? Francisco Carlos - Dramaturgia é escrever, mas não fico nessa, não gosto de olhar pelo sofrimento. É claro que as verbas liberadas para a cultura são mínimas. Nós, artistas nadamos, contra a correnteza. Somos um movimento que está fora do capital. Nós do teatro não podemos ficar no muro das lamentações, temos que realizar um trabalho de poéticas políticas.

Qual é o maior desafio e o resultado da assessoria de imprensa em uma peça como essa ? Adriana Monteiro - Em todas as peças a ideia é comunicar, de alguma forma chegar nas pessoas. Acredito que a arte pode ser transformadora. O modo como Francisco escreve, bem visceral, é um teatro contemporâneo, que pode incomodar, mas que fala de nós, o colonizador, o colonizado, da situação do índio, do branco, do negro, os conflitos. O fundamental é falar deste Brasil de forma poética.

Para você, como é interpretar em uma peça que aborda a disputa de interesses entre franceses e portugueses ? Guilherme Leme - Tudo o que a gente tem hoje em dia é a divisão de interesses. O ser humano sempre está dividido, um quer uma coisa e o outro quer outra coisa. O que mais existe é um grande desrespeito pelo direito do outro, pela liberdade do outro. É preciso ter respeito pelo outro.


O conceito de fronteira é péssima. Divide e limita, cria facções e guerras de países. Para os pássaros não existe fronteiras, quando eles voam existe apenas o planeta terra. Fazer essa peça é falar de tudo isso.

Texto e fotos: Vitor Diniz

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