• Equipe Mediação

Nos palcos: isto é um negro?

Uma fila enorme se formou em frente ao Teatro José Maria, no centro de Curitiba. Olhares ansiosos se encontravam, na esperança da porta abrir logo. Comentários sobre a importância de uma peça com o tema proposto se ouvia o tempo todo de quem lia a sinopse, que foi entregue na bilheteria. O nome do espetáculo: “Isto é um Negro?”. Mãos suadas eram passadas de tempo em tempo na roupa.



O momento chegou, as portas se abriram e os olhares curiosos passearam pelo palco, talvez na tentativa de encontrar algum vestígio de como seria o espetáculo. Os bancos acabaram, mas ainda tinha pessoas para assistir. As organizadoras do evento falaram que dava para sentarem nas escadas. Todos se acomodaram, nas cadeiras, nas escadas, no chão. O que importava era estar ali para assistir.


As luzes se apagaram, a música ficou forte e os atores entraram. Pararam de costas para a plateia e começaram a se despir. Houve o constrangimento. Um silencio ainda maior se instalou, ninguém ousava respirar mais alto, todos estavam atento a cada movimento vindo do palco.

As cadeiras amontoadas no palco, antes intactas, começaram a ser quebradas. Dava para sentir dali, do outro lado, o que os atores queriam passar, “O NEGRO É FORTE! O NEGRO AGUENTA TUDO!”. Corpos rolaram pelo chão, a encenação de como o negro é visto pela sociedade, a “carne mais barata do mercado”, a escrava nas mãos do “Sinhozinho”, a escrava como objeto sexual.





A encenação brilhante, os gritos abafados, corpos que não conseguem fugir à representação da escravidão, a representação do racismo. No palco os corpos nus se estudam, e de contorcem em uma luta contra formas de destituição da fala.

A encenação chega até o público, que levanta as mãos ao que os atores falam: “nós que achamos que não somos racistas, nós que somos filhos de pais negros, nós que já fomos parados em algum estabelecimento”. Imagens de pessoas foram passadas em um projetor no qual mostrava negros e brancos. As perguntas eram: O que é um negro? Isso é um negro?

Logo depois, aos olhos atentos e curiosos da plateia, houve uma espécie de roda de conversa em um centro de reabilitação. O ator Raoni Garcia contou como era a vida dele antes de ser negro, pois ele sempre se considerou branco. Não aceitava quando o chamavam de negro, os pais dele sempre o trataram como uma pessoa branca. Até que um dia ele entrou para um teatro diferente e teve que encenar uma biografia de um negro.


A reação foi imediata. Ele perguntou se eles iam pintá-lo. Responderam que não precisaria. Levou um choque. Voltou para casa e contou aos pais que acharam que ele estava maluco. Então acharam melhor que ele fizesse uma viagem. Antes de voltar para casa, quando caminhava pelas ruas, viu um espelho, olhou-se, e depois disso começou a se aceitar como era.

O ator comentou também sobre as “recaídas” que teve. Um dia passeando pelo shopping parou para tomar um café. A mesa estava suja. Ao olhar para o lado viu uma mulher, e pediu para ela limpar, ao que a moça responde: “eu não trabalho aqui”. A mulher era negra. Logo após isso, teve um debate sobre quantas pessoas não se aceitam como são.


Ao centro do palco, foi a vez da atriz Ivy Souza, que falou várias piadinhas que ouve por ser negra. “Um dia estava na balada e um homem branco estava me olhando. Achei que ele estava com interesses. O homem então se aproximou, deu uma bela fungada e disse: você é preta, mas é cheirosa!”. Silêncio gritante no teatro. Ela continuou, falou de várias piadas que as pessoas fazem achando que não machucam.


Ao final da encenação, uma pessoa da plateia se manifestou, aplaudiu calorosamente e disse que a peça conseguiu tocar o seu coração. Disse ainda que não se pode ir a uma peça como essa e não sair diferente.


Os rostos perplexos ao final da peça denunciaram o momento de reflexão. Alguns ainda estavam digerindo. Os atores, todos negros, nus, também desnudaram a alma e conseguiram captar cada olhar para o discurso que saiam das suas bocas. O racismo é algo que dói, que machuca.

Texto: Ivone Souza Fotos: Festival de Curitiba e Nereu Jr

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